segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

 UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!


Chove. É Dia de Natal
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!


                                                 Retrato de Florbela Espanca

AMAR!

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui... além...

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...

Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, em "Charneca em Flor"

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!



Dia de Natal


Hoje é dia de Natal

Mas o menino Jesus

Nem sequer tem uma cama,

Dorme na palha onde o pus.


Recebi cinco brinquedos

Mais um casaco comprido.

Pobre menino Jesus,

Faz anos e está despido.


Comi bacalhau e bolos,

Peru, pinhões e pudim.

Só ele não comeu nada

Do que me deram a mim.


Os reis de longe trazem

Tesouros,incenso e mirra.

Se me dessem tais presentes,

Eu cá fazia uma birra.


Às escondidas de todos

Vou pegar-lhe pela mão

E sentá-lo no meu colo

Para ver televisão.

                   Luísa Ducla Soares

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

 PAREDES QUE FALAM!






 UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!


Intermezzo

Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.


António Gedeão

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!



Miguel Torga, por Bottelho

Natal

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

Miguel Torga, Coimbra, Natal de 1974