quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!



Dia de Natal


Hoje é dia de Natal

Mas o menino Jesus

Nem sequer tem uma cama,

Dorme na palha onde o pus.


Recebi cinco brinquedos

Mais um casaco comprido.

Pobre menino Jesus,

Faz anos e está despido.


Comi bacalhau e bolos,

Peru, pinhões e pudim.

Só ele não comeu nada

Do que me deram a mim.


Os reis de longe trazem

Tesouros,incenso e mirra.

Se me dessem tais presentes,

Eu cá fazia uma birra.


Às escondidas de todos

Vou pegar-lhe pela mão

E sentá-lo no meu colo

Para ver televisão.

                   Luísa Ducla Soares

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

 PAREDES QUE FALAM!






 UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!


Intermezzo

Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.


António Gedeão

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!



Miguel Torga, por Bottelho

Natal

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

Miguel Torga, Coimbra, Natal de 1974

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!

Natal


Hoje é dia de Natal.

O jornal fala dos pobres

em letras grandes e pretas,

traz versos e historietas

e desenhos bonitinhos,

e traz retratos também

dos bodos, bodos e bodos,

em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?

                             Sidónio Muralha (28/07/1920 - 08/12/1982)





 UM POEMA POR DIA, NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA!

Conceição
Para se namorar do que criou,
Te fez Deus, sacra Fénix, Virgem pura.
Vede que tal seria esta feitura
Que para si o seu Feitor guardou!
No seu alto conceito Te formou
Primeiro que a primeira criatura,
Para que única fosse a compostura
Que de tão longo tempo se estudou.
Não sei se digo em tudo quanto baste
Para exprimir as raras qualidades
Que quis criar em Ti quem Tu criaste.
És Filha, és Mãe e Esposa: e se alcançaste,
Uma só, três tão altas qualidades,
Foi porque a Três de Um só tanto agradaste.
Luís Vaz de Camões
(Pintura de Diego Velázquez, c.1619)


 Falavam-me de Amor


Falavam-me de Amor
Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.
Natália Correia, in 'O Dilúvio e a Pomba'